Advertência: Esta postagem ficou bem longa. Mesmo com os vídeos e imagens, que ajudam a manter o interesse, creio que só será apreciada por aqueles(as) dados(as) a longas distâncias e longas leituras - reclinados ou não... Aproveitem!
- Não obstante, a participação espetacular da equipe Rans - ainda que não tenha batido o recorde reclinado - excitou os ânimos na comunidade reclinesca. Muita gente já está torcendo que a participação cresca em 2010, que tenhamos ao menos 2 equipes competindo entre si, e quem sabe tbém algum reclineiro solo. Nomes que vêm à mente do povo são Velokraft e Bacchetta, que já têm tradição na RAAM. Bacchetta, muito especialmente, é uma empresa muito presente em competições de ultra-distância nos EUA. John Schlitter, co-proprietário, é um ciclista de grande sucesso na modalidade, assim como vários outros atletas Bacchetta, inclusive algumas damas. Isso tudo parece estar gerando o sentimento de que a marca deve estar na RAAM em 2010.
Neste tópico do fórum Bacchetta já se começa a discutir seriamente o assunto. Especula-se de tudo por enquanto: uma ou duas equipes de 4; uma equipe de 8; uma equipe feminina ou mista; vários ciclistas solo, inclusive um na categoria 60-70 anos; e por aí vai. A maior dificuldade é arcar com os custos, que são muito altos para uma empresa pequena. Colocar uma equipe na estrada, na RAAM, significa mobilizar no mínimo uma dúzia de pessoas e 3 a 4 veículos de apoio. Estima-se o custo total em 25000 dólares, aproximadamente, por cada equipe.

- Considerando o exposto acima, torna-se especialmente admirável o fato de que muitas equipes conseguem não apenas arcar com os custos, mas ainda arrecadar fundos para diversas causas humanitárias - este é um dos aspectos muito bacanas da RAAM. Em média, as equipes têm arrecadado cerca de um milhão de dólares por ano.
- Este ano acompanhamos vários casos de ciclistas acometidos pela temida "síndrome de Shermer Neck". Acontece quando o ciclista simplesmente não consegue mais sustentar a própria cabeça. Não lembro os nomes de todos os acometidos nesta edição, mas sei que ao menos um teve que abandonar a prova. Normalmente, nesses casos, tenta-se contornar o problema montando uma armação (de PVC, p.ex.) amarrada às costas do ciclista, que faça o trabalho que a musculatura já não consegue. Este ano apareceu uma solução alternativa, criada pela equipe de apoio do ciclista Paul Danhaus. Para a confecção do (bem-sucedido, diga-se de passagem) equipamento foram utilizados os materiais disponíveis no momento - incluindo um absorvente feminino. Parece que este último elemento foi fundamental para proporcionar... absorção (tanto de suor quanto de trepidação). A necessidade é a mãe da invenção.

- As bicicletas Rans XStream utilizadas pela equipe reclineira - especula, bem-humoradamente, um membro húngaro do fórum BROL - são possivelmente as mais pesadas e tbém as mais baratas de todas as bicicletas utilizadas na RAAM. Especulação que provavelmente está bem perto da realidade. O modelo Xstream de fábrica custa cerca de 2600 dólares e pesa 11,8 kg. Pesada mesmo para uma reclinada (de corrida, claro): uma M5 de carbono está mais para 8 kg, e as convencionais top de linha, pouco mais de 6. Isso não impediu que os atletas dessem um show, inclusive nas montanhas. As que foram utilizadas na corrida tinham como único up-grade aparente as rodas Zipp e Hed que os próprios ciclistas trouxeram.
- Ao falar em peso - da bicicleta, do ciclista, ou de ambos - é natural falar tbém em subidas, ladeiras, lombas, morros, montanhas... Pois é aqui que o peso (a massa, corrigiria o Olavo) se torna um obstáculo importante: quando pedalamos morro acima, estamos avançando para frente e para cima - indo contra a aceleração da gravidade, portanto.
Já vimos que as XStream pedaladas pela equipe Rans eram provavelmente as bicicletas mais pesadas da corrida (sem contar as tandems e as hand-bikes, obviamente).
Agora seria o momento de perguntar: como foi o desempenho dos reclineiros nas subidas? Reparem que falo dos reclineiros, não das reclinadas - bicicleta não anda sozinha, muito menos morro acima.
Reproduzo aqui dois gráficos que podem ajudar a visualizar e entender esta e outras informações. O primeiro, tirado do site da prova, mostra os PCs (=TS=time station) na linha horizontal; a linha vertical mostra, para cada PC (TS), a percentagem de escalada daquele ponto em relação à altimetria acumuldada total da prova - são as barras cor-de-telha. A linha com pontos que corre por cima é uma tentativa de representação da dificuldade relativa (subjetiva?) de cada trecho. Clique sobre a imagem para visualizar melhor.

O segundo gráfico é obra de João de Souza, um reclineiro e webdesigner brasileiro radicado em Nova York. Neste, a linha horizontal tbém representa os PCs (TSs), e a vertical representa velocidade média (expressa em milhas por hora). As linhas coloridas representam o desempenho de cada uma das 4 equipes mais fortes da categoria quartetos deste ano. O gráfico está incompleto, porque quando a equipe Rans (linha verde) cruzou a linha de chegada, o João parou de atualizar, e naquele momento as outras equipes estavam vários PCs (e algumas centenas de quilômetros) atrás.

Observem que as curvas correm praticamente paralelas. Onde a média de uma equipe despenca, todas despencam: são os trechos de montanha, especialmente os mais íngremes (não necessariamente as montanhas mais altas).
É importante observar que o gráfico do João mostra a velocidade média total de cada equipe a cada ponto da prova - ou seja, ele não diz a velocidade que cada equipe desenvolveu em cada etapa separadamente. Mas, com um pouco de paciência, é possível buscar tbém estas informações - a partir daqui - que ajudam a ter uma imagem mais nítida do desempenho geral e nas montanhas.
Tomo como exemplo o PC 46 (Gormania, West Virginia). Este trecho dos temidos Montes Apalaches foi onde a equipe Rans registrou a pior média entre um PC e outro: 14,83 milhas por hora. A equipe Strong Heart fez 15,89 - pouco mais de 1 milha por hora mais rápido que os reclineiros. A equipe Austria Triathlon Team fez a melhor média dos 4tetos neste PC: 16,58. Mesmo assim, chegou em 3º lugar; Strong Heart em 2º, Rans em 1º.
Outro exemplo: PC 8 (Flagstaff, Arizona - um dos trechos mais difíceis segundo o diagrama oficial). Aqui, Rans fez 16,98 de média - mais alta do que as equipes convencionais: Strong Heart fez 16,45, Surfing USA (que então liderava a prova) fez 16,2.
Bueno, alguém pode estar se perguntando, e pra quê essa apurrinhação toda? É que o tema reclinada & subida é quiçá o capítulo menos compreendido de todo o ciclismo. Nem os próprios reclineiros se entendem. É um assunto complexo, que parece simples, e faz com que, invariavelmente, pessoas digam ou escrevam bobagens, quando se deixam guiar apenas por aquilo que lhes parece ser "intuitivamente lógico".
Não pretendo esgotar o assunto aqui, evidentemente. Ele está acima das minhas forças tbém. Mas, tendo como base os dados expostos acima, parece-me viável elencar algumas conjecturas que me parecem razoáveis. Racionínios mais completos serão muito bem-vindos na seção de comentários. Lá vai:
1) Das duas, uma: ou os atletas da Rans são muito mais fortes que todos os outros da categoria (quartetos) , ou as reclinadas não são - nem de longe - tão ruins de subida como a maioria crê. A única maneira de saber com certeza seria montar um dispositivo de medição de potência em cada bicicleta e comparar os valores. Esse dispositivo (power meter, em inglês) pode ser montado no pedivela ou no cubo, e vem aos poucos substituindo o monitor cardíaco como acessório para treinamento.
2) Existe uma crença, baseada na observação, segundo a qual a reclinada apresenta alguma desvantagem em subida, quando a inclinação passa de um certo valor. Quanto? Não se sabe; alguma coisa até 5 ou talvez 10 %.
A propósito: a inclinação de estradas é freqüentemente expressa em percentagem (e não em graus). Como referência: um percurso perfeitamente plano/horizontal tem inclinação de 0%, enquanto uma rampa com ângulo de 45 graus tem inclinação de 100% - a cada metro de chão percorrido, sobe-se tbém 1 metro na vertical. Em uma ladeira de 10%, sobe-se 1 metro a cada 10 metros percorridos, e assim por diante. Indicações de inclinação, em países do Hemisfério Norte, fazem parte da sinalização de trânsito. Ao lado, imagem de uma estrada no País de Gales. A placa (bilíngüe) alerta os motoristas para que usem marchas de força. Ciclistas não precisam de advertência, pois sentem a inclinação nas pernas, imediatamente... (editado 12-vii-09)
Os resultados parecem corroborar essa crença: Rans assumiu a liderança justamente em terreno montanhoso (as Rochosas) - porém, a inclinação daquelas estradas é bem menor que a dos Apalaches - onde, de fato, Rans registrou, por breves momentos, média de velocidade abaixo dos outros quartetos.
3) Se for verdade que a reclinada apresenta desvantagem a partir de uma certa inclinação do terreno, então tbém é verdade que, em terreno de inclinação menor do que este valor (que não sabemos ao certo), essa desvantagem não existe. A não ser na cabeça de algumas pessoas. E, como dizem que na subida o fator psicológico "pesa" muito...
4) Em um percurso suficientemente longo, uma pequena desvantagem em um trecho particular não é suficiente para anular as grandes vantagens representadas pelo conforto e pela área frontal (=arrasto aerodinâmico) menor da reclinada. Observe-se que, neste caso particular, não se trata de reclinadas que exploram a vantagem aerodinâmica ao máximo - bem longe disso.
5) Para os reclineiros: da próxima vez que você ultrapassar um ciclista convencional, em um trecho plano, ou passar zunindo por ele em uma descida, não pense que você é o Super-Homem. É possível que o ciclista que você ultrapassou seja até mais forte que você; mas a aerodinâmica trabalha a teu favor.
6) Para os ciclistas convencionais: da próxima vez que você ultrapassar um reclineiro em um subida, não pense que é porque a reclinada não presta. O cara é que é um pangaré. Se você pegar um reclineiro mais forte que você, ele vai te fazer comer poeira, mesmo na subida.
7) É por essas e por outras que o "sorriso reclineiro" está se tornando icônico. Vá procurar alguma foto de ciclista sorrindo no meio da RAAM. Tirando os reclineiros, só a Dani Genovesi consegue...